Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Parágrafos iniciais do romance «Um Sorriso para a Eternidade», de António Garcia Barreto, publicado pela Oficina do Livro.

«O sorriso amável do meu avô Aurélio é a única imagem forte que retenho dele. Tudo o resto, que não foi nada, acabou por se esfumar ou nem sequer existir. Só esse sorriso magnético e encantador me liga à sua memória, levando-me a pôr em dúvida a sua herança genética, já que eu nunca soube sorrir, e ainda menos de forma amável. Mas alguma coisa devo ter herdado dele. Ando agora interessado em desvendar a sua existência misteriosa e um tanto desvairada, segundo a opinião geral da família, para compreender melhor as razões da minha própria vida.
— O passado caminha para nós às arrecuas, mas não deixa de nos perseguir — disse Bonaparte, bêbado vitalício com banca de jornais e revistas na zona das Avenidas Novas, num desses dias em que passei por lá para comprar o jornal e em deslize de conversa lhe contei que andava a investigar a vida do meu avô.
— És capaz de acreditar em alguém que mal conheces? — lembro-me de lhe ter perguntado enquanto procurava as moedas para pagar o jornal. Bonaparte olhou para mim com o seu olhar redondo e inflamado, como se estivesse à procura da resposta adequada, puxou da garrafa de vinho, que escondia debaixo do balcão das revistas, bebeu um gole e acabou por dizer:
— Acredito, doutor. Mas só até começar a desconfiar.
Bonaparte é a pessoa mais espantosa que conheci nos últimos anos. Não por aquilo que fez ou faz. Mas pelo que poderia ter feito, não se desse o caso de ter saltado do comboio da vida em andamento. Não morreu nem ficou inválido, mas nunca mais foi a mesma pessoa. Com um gesto cansado, guardou a garrafa, sorrindo-me com os seus dentes cavalares e o olhar disperso e sem brilho. De seguida, mimou Napoleão, um rafeiro alentejano maltratado e cheio de pulgas, companheiro de desdita, que abanava o rabo, feliz e comunicativo, enquanto eu me afastava.

Entrei no Café Gualdim, que não era o nome que ostentava na fachada, mas a forma como a minha família sempre o designara, ao que parece por ser o nome do seu primeiro proprietário. Sentei-me no lugar habitual a esgrimir contendas com a vida. Apraz-me estar sozinho, a reflectir, ou apenas deixando vaguear o pensamento por uma região nebulosa, quase inerte. Gostava desse café luminoso situado num bairro de classe média, numa Lisboa que se descaracterizava aos poucos. A cidade morria fora das horas de expediente, num estertor de néons e ruídos automóveis, insensível às vozes dos que a queriam viva e companheira. Exceptuavam-se alguns pólos de actividade em torno de centros comerciais e casas de espectáculo. No meu bairro, a população estava envelhecida e deprimida, trancada em casa, receando o mundo perverso anunciado pelos telejornais. A televisão exibia um universo autofágico, horrores e desgraças todos os dias a qualquer hora, completado com séries dramáticas passadas em hospitais, thrillers diabólicos, guerras de pedras, tsunamis, vulcões expelindo lava sanguínea, explosões, fome, crianças a sofrer, mortes ao vivo — o inferno! O melhor mesmo era ficar em casa a relembrar o passado, que, se não fora feliz, também não trouxera demasiada infelicidade. Eu tinha quarenta anos e olhava o espectáculo das televisões com sobranceria. A guerra das audiências obrigava a muitas loucuras. Mantinha a televisão quase sempre desligada ou sem som. Abaixo o ruído! Queria viver em paz. Era agradável tomar uma bebida na esplanada do Café Gualdim, sobretudo agora que um amplo resguardo de vidro nos isolava do rumor do trânsito na rua. Reunia-me ali com os amigos, alguns do tempo da adolescência, das desafinadas bandas de garagem, da luta política estudantil, mais reivindicativa e folclórica do que eficaz. Discutia-se a situação do país com o ar solene com que nós, portugueses, gostamos de fingir que levamos qualquer coisa a sério. Política, cultura e futebol eram os grandes temas. As conversas à mesa dos cafés já não eram acaloradas como décadas atrás, antes da transformação desses espaços de diálogo e troca de ideias em lojas de moda, fast-food, bancos e outros impérios modernos. Ouvira o meu pai falar algumas vezes do sortilégio dos cafés, na sua juventude, onde se juntavam os amigos para conviver e falar daquilo que os preocupava ou enaltecia. Aí estudavam, conversavam, namoravam, bebiam imperiais, cafés e limonadas. Mais lá para trás, durante a Primeira República, as revoluções idealizavam-se à mesa de um café, entre correligionários cheios de esperança nos seus ideais, alguns escondendo a artilharia civil debaixo da cama. Havia em tudo uma grande dose de romantismo. Depois, no consulado de Salazar, em vez de revoluções, discutia-se futebol, alguma literatura e cinema, quase sempre receando o súbito aparecimento de algum zelador da pátria.»

 

© António Garcia Barreto

 



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«Escrever um poema é como se fosse uma noite de amor, escrever um conto é um namoro, mas escrever um romance é um casamento.»
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